FREI PAULO

27/01/2016 12:45

- Bença, Frei Paulo.

- Deus te abençoe, meu filho.

Tirava do bolso de sua batina de cor marrom um santinho, presenteando a criança.

Assim era o vigário da igreja do bairro da Boa Vista, em Rio Preto, uma cidade que na época, não tinha mais do que trinta mil habitantes, mas já se desenhava como uma futura metrópole paulista.

Era ela o principal elo de ligação, não só  das inúmeras cidades vizinhas, mas também de todo o sertão da alta araraquarense, atingindo até as barrancas do Rio Paraná.

Rio Preto já se apresentava com níveis elevados de saúde, de educação, de cultura, de segurança, de transportes, de prestações de serviços e de esportes, a fazer inveja às demais regiões brasileiras, não podendo ser esquecidos os seus famosos “carnavais de rua”.

O seu comércio atendia as exigências da população regional, havendo ali até a “Casa dos Dois Mil Réis”, um prenúncio dos atuais um e noventa e nove, além de possuir setores de agricultura e indústria  bastante desenvolvidos.

O Frei Paulo, além de atender os serviços de sua comunidade, também mensalmente rezava na parte da manhã uma missa na Capela de Gonzaga de Campos.

Esse lugarejo era famoso por possuir um grande embarcadouro de gado em sua estação ferroviária, inclusive com vastas pastagens para apascentar as boiadas vindas dos sertões mineiros, matogrossenses e da alta araraquarense.

O povoado, além da capela, possuía também três casas para moradia dos ferroviários (chefe, telegrafista e portador), um poço artesiano no pátio da estação de trem, “a venda” do seo Argnelo, a pensão do seo Crispim, a olaria do seo Afonso e poucos pomares ou chácaras.

O seu arrabalde era cortado pelo Rio Piedade, que nascia no município de Mirassol, desaguando em um riacho localizado em Rio Preto, erigindo-se em um local para diversão dos pescadores.

 Em um domingo pela manhã, o franciscano montado em um belo cavalo foi rezar a missa em Gonzaga de Campos.

Todavia, no término da celebração, surpresamente verificou que o seu cavalo, embora com as rédeas amarradas em uma árvore, havia desaparecido.

A solução ficou a cargo de Dona Marianinha, uma  fazendeira que logo providenciou uma charrete e um condutor para levar o religioso de volta a Rio Preto.

Segundo o charreteiro, quando da entrega do Frei Paulo em sua paróquia, verificaram que o seu cavalo devidamente arreiado encontrava-se na porta da sacristia da igreja, aguardando a chegada do seu dono.

Alguns anos mais tarde, o Frei Paulo veio em Matão, cidade  em que a minha família passou residir,  lembrando o episódio do desaparecimento do seu cavalo.

Eu e meus dois irmãos, agora já adultos, nada comentávamos e, na verdade, sentiamos pesares pela traquinagem feita naquela oportunidade.

Frei Paulo, em sua despedida de nossa casa, com destino a Itápolis, onde iria fazer as suas pregações, não deixou de dar santinhos às minhas duas irmãs menores, ocasião em que uma delas disse:

- Bença, Frei Paulo.

 

JARBAS MIGUEL TORTORELLO