O CENSO
O relógio da estação metropolitana marcava nove horas da manhã.
O recenseador, depois de autorizado, entrou em uma casa humilde, a fim de fazer o censo da família.
O marido tinha acabado de se levantar, pretendendo fazer uma pescaria com amigos, sendo que a mulher já tinha feito o café da manhã, que seria tomado com bolinhos de fubá.
O recenseador, em primeiro lugar pediu que o cachorro fosse amarrado, porque parecia um pouco bravo, ameaçando avançar sobre as pessoas.

- Senhor Raimundo, estou aqui com uma ficha, pretendendo fazer o recenseamento de sua família.
- Ora, não sabemos bem o que é isso.
- O governo, a cada dez anos, realiza o recenseamento da população, sendo no último censo ficou provado que o nosso país já tem mais de cem milhões de pessoas.
- Mas, para quê tudo isso, aqui em casa moramos em seis pessoas, eu, minha mulher e quatro filhos.
- Bem, qual o nome e a idade das crianças?
- Samuel tem doze anos; André, onze; João, oito e Mariazinha, sete. Mas, o governo não ajuda em nada, não dando a nós sequer a Bolsa Família.
- Mas, senhor, para ter direito a esse benefício, há necessidade de cadastramento no órgão governamental.
- Acontece que já entregamos aos homens do governo uma enorme papelada, mas, até agora, nada recebemos.
Recenseador ainda queria saber quantos imóveis à família tinha.
Foi informado que moravam naquele casebre que estava quase caindo, pagando aluguel, estando os pagamentos com atrasos de seis meses, ameaçados por um oficial de justiça de serem despejados.
O recenseador, atravessando uma grande poça de água de chuva, depois de obtidas aquelas informações, foi em direção a outros barracos para continuar o seu trabalho.
Ele ficou bastante triste em ver a miséria que reinava naqueles cantos, com as casas sem estruturas e sem saneamentos básicos, sem escolas nas proximidades, sem regular meios de transportes e sem atendimentos médicos.
O compositor Assis Valente deixou uma música chamada “Recenseamento”, cantada por Carmen Miranda e Ademilde Fonseca, na década de quarenta, dizendo ao recenseador que: “A nossa casa não tem nada de grandeza/ nós vivemos na pobreza, sem dever tostão/Tem um pandeiro, uma cuíca, um tamborim/ um reco-reco, um cavaquinho e um violão”.
JARBAS MIGUEL TORTORELLO